Camila Romano analisa desafios globais no combate aos arbovírus: Dengue, Zika e Chikungunya

Pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo estuda atualmente a evolução viral inter e intra-hospedeiro dos vírus da dengue e outros vírus de RNA

Por Paolo Enryco

Com o objetivo de discutir o panorama mundial referente aos arbovírus Zika, Chikungunya e principalmente a Dengue, foi realizado em meados de março o 1º Workshop Internacional Asiático-Latino-Americano sobre Diagnóstico, Manejo Clínico e Vigilância da Dengue, realizado pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) em parceria com o Ministério da Saúde brasileiro e o Programa de Cooperação de Singapura.

Dentre as considerações do evento, um dos mais emblemáticos foi o fato desses vírus serem um desafio global, cuja necessidade em combatê-lo ultrapassa o combate ao mosquito transmissor, mas que envolve ainda órgãos de saúde, pesquisadores e governos, em atos conjuntos, simultâneos e integrados.

Diante disso, a Newslab entrou em contato com Camila Romano, pesquisadora cientifica IV dos Laboratórios de Investigação Médica do HC (LIM) e do Laboratório de Virologia do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. Doutora em ciência com especialidade em microbiologia, atualmente, dedica-se ao estudo da Evolução viral inter e intra-hospedeiro dos vírus da dengue e outros vírus de RNA.

Confira, a seguir o bate papo com a pesquisadora, que comenta também aspectos gerais dos arbovírus, bem como o papel do Brasil nessa luta e do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo.


Diante deste cenário de desafio global, poderia comentar seu campo de pesquisa (Evolução viral inter e intra-hospedeiro dos vírus da dengue e outros vírus de RNA) e de que forma ela pode ser contributiva.

Estudo como os vírus evoluem, basicamente. A evolução de um organismo, incluindo os vírus, ocorre no nível do seu genoma, de acordo com o acumulo de mutações ao longo do tempo. O conhecimento de como é a biologia do vírus, como ele muda (acumula mutações, e vírus de RNA – como é o caso dos arbovírus – mutam mais rápido do que vírus de DNA) e por consequência, como ele evolui, tem grande impacto no entendimento da adaptação dos vírus aos seus hospedeiros/vetores, no desenvolvimento de vacinas, ou desenvolvimento de drogas por exemplo. Vacinas tem como função mimetizar uma infecção real, ok? Se em uma vacina de vírus inativado, ou que usa apenas proteínas recombinantes para estimular o sistema imune, forem utilizadas regiões do vírus que mutam com facilidade, há chances de quando houver uma infecção real, posteriormente à vacina, o organismo não reconheça o agente infeccioso e não consiga combatê-lo com eficácia (já que o vírus, na infecção de verdade, pode ser ligeiramente diferente – geneticamente- do que foi usado na vacina). Ou seja, a vacina perde sua função. As mutações também são importantes para a adaptação dos vírus a novos hospedeiros, e no caso dos arbovírus como Dengue, Chikungunya e Zika, a novos vetores. Por exemplo, um caso real ocorreu com o vírus Chikungunya, onde a mutação de um aminoácido apenas no genoma do vírus aumentou sua especificidade ao vetor Aedes albopictus, que por sua vez, foi o grande vetor responsável pela epidemia de 2005 nas ilhas Reunion (artigo original 10.1371/journal.ppat.0030201).


Ainda neste encontro, a bióloga Lívia Vinhal, também da CGENCMD, afirmou ao Portal Saúde “que a coinfecção é um desafio para os serviços de saúde e que esta forma de agravo foi identificada nos últimos três anos, com a entrada no Brasil dos vírus da Zika e Chikungunya”. Poderia explicar os agravos referentes à coinfecção para o diagnóstico?

Veja, se o diagnóstico diferencial quando há apenas uma infecção já é complicado pelo índice de possíveis cruzamentos, podendo em uma infecção por apenas um vírus termos mais um teste positivo, imagine se de fato houver coinfecção. Os testes sorológicos dariam todos positivos da mesma forma, e apenas por testes moleculares a detecção da coinfecção seria possível. Ainda, a carga viral do Zika é sempre menor do que as cargas do dengue. Ou seja, é possível que nem a biologia molecular seja capaz, em alguns casos, de identificar essa ocorrência. Em termos clínicos, não há, até onde eu sei, relatos de maior gravidade quando há coinfecção por esses vírus, em relação as monoinfecções.


Ante esse cenário, que conselhos você daria para os laboratórios de análises clinicas?

Na verdade, a tendência é que testes mais específicos sejam desenvolvidos, tanto no Brasil como no exterior. E os já existentes, aperfeiçoados. O Zika nos pegou de surpresa, assim como Chikungunya, e certamente, outros arbovírus que virão por aí. Até o momento, infelizmente, apenas testes moleculares, em suspeita de coinfecção ou quando há cocirculação de mais de um arbovírus, são 100% confiáveis. Embora não garanta positividade em casos onde a viremia é baixa, ou o período virêmico já está terminando. Os testes de detecção de antígenos NS1 também são muito mais confiáveis do que testes para a detecção de anticorpos. Muito embora existam relatos (poucos) de cruzamento também. Investimento em novos testes e otimização dos atuais são imprescindíveis.


Levando em conta a América em sua totalidade, como o Brasil está posicionado no combate à dengue em relação aos outros países?

Atualmente, o Brasil, Colômbia e México contam com mais de 70% dos casos reportados nas Américas. E o Brasil sempre lidera a lista de numero de casos suspeitos e/ou confirmados. O Brasil se mobilizou mais nos últimos dois anos devido a entrada dos outros arbovírus (ZIKV e CHIKV). No final de 2015 foi decretada situação de emergência em saúde pública, e em decorrência, alguns planos de controle ao mosquito estimulados pelo governo (como a sexta-feira sem mosquito) foram criados. Em 2016 o problema persistiu, e diversos estados e municípios se encontravam em situação de alerta (dados do LIRAa – Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti). Como consequência, dinheiro para a pesquisa com Zika vírus foi liberado em caráter emergencial, e o governo federal lançou campanhas e planos emergenciais também.  De fato, o incentivo para a pesquisa com Zika ocorreu, e de certa forma, bastante rápido. Ocorre que as estratégias de combate e mobilizações que em grande parte tiveram como fator estimulante o Zika vírus tiveram grande impacto em todos os arbovírus, já que prevenindo um, previne-se todos. Nesse sentido, o Brasil acabou ganhando muito nesses últimos 2 anos. A população, já acostumada a dengue, mas não a bebês com microcefalia, se assustou e se mobilizou. Situação atual: Juntamente com outros fatores (climáticos e biológicos) certamente essas campanhas impactaram nos números reduzidos de epidemias de arbovírus em 2017. Tivemos relativamente poucos casos confirmados de Zika esse ano (cerca de 1.6 mil), e houve redução também de casos de CHIKV, com cerca de 10 mil confirmações. Dengue também foi drasticamente reduzida. Creio que os fatores climáticos foram cruciais para isso, mas não exclusivos.


Quais são as principais políticas de saúde pública na luta organizada contra essas doenças tropicais (dengue, Chikungunya e Zika) promovidas pela OPAS? Qual o papel do Instituto de Medicina Tropical (IMT) nesse cenário?

A OPAS, em parceria com os ministérios, organiza campanhas de eliminação de focos de mosquitos anualmente.  Por consequência da epidemia de Zika, também aumentou a capacitação do programa Mais Médicos, e organizou workshops para capacitação e divulgação de informação. Também foi prometida uma desburocratização por parte do ministério e dos governos federais e estaduais no que diz respeito a ações para a pesquisa e combate aos vírus. O IMT, em particular o Laboratório de Virologia, trabalha com pesquisa em dengue já há muitos anos. Somente nos últimos 5 anos, parcerias foram estabelecidas entre o IMT e o Hospital Ana Costa, de Santos, para o diagnóstico rápido e acompanhamento de casos de dengue com diferentes evoluções clinicas.

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Camila Malta Romano é pesquisadora Cientifica IV dos Laboratórios de Investigação Médica do HC (LIM) e do Laboratório de Virologia do Instituto de Medicina Tropical de SP. Doutora em Ciências, com especialidade em Microbiologia pelo ICB-USP. Trabalha com filogenia e evolução viral.

Um projeto de grandes proporções, envolvendo São Paulo e Goiânia (Estudo de Incidência de dengue no Brasil, em municípios de alta e média endemicidade) financiado pela Sanofi e coordenado pelos professores Claudio Pannuti e Expedito Luna. Esse ano conseguimos dois financiamentos (um FAPESP e outro de uma empresa privada) para pesquisas com vírus Zika, também em pacientes do hospital Ana Costa.

Por fim, a Drª Ester Sabino, diretora do Instituto, também esta ativamente produzindo dados e arrecadando verbas de programas nacionais e internacionais para pesquisa em Zika, agregando pesquisadores de diferentes departamentos. O IMT é um dos institutos participantes dos dois maiores projetos/programas de pesquisa em Zika no Brasil, o Zika Alliance e o ZIBRA.

 


 

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